Episódios

  • Das Vantagens de Ser Bobo por Odilon Esteves.

    - O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo.

    - O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

    - Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.

    - O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem.

    - Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas.

    - O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver.

    - O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoiévski.

    - Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar-refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era a de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.

    - Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.

    - O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.

    - Aviso: não confundir bobos com burros.

    - Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a frase célebre: "Até tu, Brutus?"

    - Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

    - Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu.

    - Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

    - O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.

    - Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.

    - Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida.

    - Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

    - Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita o ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

    - Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.

    - É quase impossível evitar excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

    Autora: Clarice Lispector

    Assista este poema narrado pelo Odilon Esteves também no Youtube pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=esx7h5NWfl0

  • Era noite de lua na minha alma por Alexsandre da Silva Carvalho.

    Era noite de lua na minha alma

    quando surgiste pela vez primeira:

    em cada estrela, pelo azul em calma,

    florescia uma flor em de laranjeira.

    A esperança entreabria a verde palma

    ante os meus olhos, tépida, fagueira,

    como um aroma que inebria e acalma.

    Romaria de amor, doce rameira!

    E era um jardim de lírios. Suavemente

    sorriu-me a tua boca enamorada,

    como as flores que são como tu és...

    - "Em que pensas?" - dissestes, a voz tremente

    - "Senhora, penso que serás fanada como este lírio que te atira aos pés!"

    Autor: Alphonsus de Guimaraens

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  • O Homem; As Viagens por Odilon Esteves.

    O homem, bicho da terra tão pequeno
    Chateia-se na terra
    Lugar de muita miséria e pouca diversão,
    Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
    Toca para a lua
    Desce cauteloso na lua
    Pisa na lua
    Planta bandeirola na lua
    Experimenta a lua
    Coloniza a lua
    Civiliza a lua
    Humaniza a lua.

    Lua humanizada: tão igual à terra.
    O homem chateia-se na lua.
    Vamos para marte - ordena a suas máquinas.
    Elas obedecem, o homem desce em marte
    Pisa em marte
    Experimenta
    Coloniza
    Civiliza
    Humaniza marte com engenho e arte.

    Marte humanizado, que lugar quadrado.
    Vamos a outra parte?
    Claro - diz o engenho
    Sofisticado e dócil.
    Vamos a vênus.
    O homem põe o pé em vênus,
    Vê o visto - é isto?
    Idem
    Idem
    Idem.

    O homem funde a cuca se não for a júpiter
    Proclamar justiça junto com injustiça
    Repetir a fossa
    Repetir o inquieto
    Repetitório.

    Outros planetas restam para outras colônias.
    O espaço todo vira terra-a-terra.
    O homem chega ao sol ou dá uma volta
    Só para tever?
    Não-vê que ele inventa
    Roupa insiderável de viver no sol.
    Põe o pé e:
    Mas que chato é o sol, falso touro
    Espanhol domado.

    Restam outros sistemas fora
    Do solar a col-
    Onizar.
    Ao acabarem todos
    Só resta ao homem
    (estará equipado?)
    A dificílima dangerosíssima viagem
    De si a si mesmo:
    Pôr o pé no chão
    Do seu coração
    Experimentar
    Colonizar
    Civilizar
    Humanizar
    O homem
    Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
    A perene, insuspeitada alegria
    De con-viver.

    Autor: Carlos Drummond de Andrade

    Assista este poema narrado pelo Odilon Esteves também no Youtube pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=mul0js51mWw

  • Pátria Minha por Odilon Esteves.

    A minha pátria é como se não fosse, é íntima 
    Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo 
    É minha pátria. Por isso, no exílio 
    Assistindo dormir meu filho 
    Choro de saudades de minha pátria. 

    Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi: 
    Não sei. De fato, não sei 
    Como, por que e quando a minha pátria 
    Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água 
    Que elaboram e liquefazem a minha mágoa 
    Em longas lágrimas amargas. 

    Vontade de beijar os olhos de minha pátria 
    De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos... 
    Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias 
    De minha pátria, de minha pátria sem sapatos 
    E sem meias, pátria minha 
    Tão pobrinha! 

    Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho 
    Pátria, eu semente que nasci do vento 
    Eu que não vou e não venho, eu que permaneço 
    Em contato com a dor do tempo, eu elemento 
    De ligação entre a ação e o pensamento 
    Eu fio invisível no espaço de todo adeus 
    Eu, o sem Deus! 

    Tenho-te no entanto em mim como um gemido 
    De flor; tenho-te como um amor morrido 
    A quem se jurou; tenho-te como uma fé 
    Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito 
    Nesta sala estrangeira com lareira 
    E sem pé-direito. 

    Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra 
    Quando tudo passou a ser infinito e nada terra 
    E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu 
    Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz 
    À espera de ver surgir a Cruz do Sul 
    Que eu sabia, mas amanheceu... 

    Fonte de mel, bicho triste, pátria minha 
    Amada, idolatrada, salve, salve! 
    Que mais doce esperança acorrentada 
    O não poder dizer-te: aguarda... 
    Não tardo! 

    Quero rever-te, pátria minha, e para 
    Rever-te me esqueci de tudo 
    Fui cego, estropiado, surdo, mudo 
    Vi minha humilde morte cara a cara 
    Rasguei poemas, mulheres, horizontes 
    Fiquei simples, sem fontes. 

    Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta 
    Lábaro não; a minha pátria é desolação 
    De caminhos, a minha pátria é terra sedenta 
    E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular 
    Que bebe nuvem, come terra 
    E urina mar. 

    Mais do que a mais garrida a minha pátria tem 
    Uma quentura, um querer bem, um bem 
    Um libertas quae sera tamen 
    Que um dia traduzi num exame escrito: 
    "Liberta que serás também" 
    E repito! 

    Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa 
    Que brinca em teus cabelos e te alisa 
    Pátria minha, e perfuma o teu chão... 
    Que vontade me vem de adormecer-me 
    Entre teus doces montes, pátria minha 
    Atento à fome em tuas entranhas 
    E ao batuque em teu coração. 

    Não te direi o nome, pátria minha 
    Teu nome é pátria amada, é patriazinha 
    Não rima com mãe gentil 
    Vives em mim como uma filha, que és 
    Uma ilha de ternura: a Ilha 
    Brasil, talvez. 

    Agora chamarei a amiga cotovia 
    E pedirei que peça ao rouxinol do dia 
    Que peça ao sabiá 
    Para levar-te presto este avigrama: 
    "Pátria minha, saudades de quem te ama… 
    Vinicius de Moraes."

    Autor: Vinicius de Moraes.

    Assista este poema narrado pelo Odilon Esteves também no Youtube pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=bttERoftXxA

  • O Futuro por Marina Alves.

    O futuro? Tem orelhas,
    mas é surdo. E é manco.
    Se arrasta, sem espanto
    mais alheio do que lúcido
    com o nosso despreparo.

    Se fosse um deus amava o humano mas, como não existe,
    o futuro tem de amansar seus ventos, marcando as peles,
    as montanhas. Sendo um gênio, não é um exército
    de cronogramas, nem de antecipações.

    Tem firmeza de flor. E é
    invisível, reconhecido
    por seus efeitos de brisa,
    furacão. Nunca adiado.
    Não tem nada a ensinar
    no entanto é um mestre
    dizem os esgrimistas,
    os observadores de saltos,
    os gatos também
    aprendem certos truques com ele.

    E se ama os despreparados
    lhe sabem tanto os que fazem
    quanto os que esperam.
    Os otimistas valem mais
    valem quanto?
    Cem bifurcações,
    sucessivas gerações
    de bem aventurados
    que topam em pedras,
    cicatrizam e correm
    bem alimentados
    com fome de mais
    alimento.

    São seus sinais
    os imprevistos, os cavalos
    os pontos cardeais
    os cinco sentidos
    e os setes buracos da cabeça.

    Autora: Júlia de Carvalho Hansen

  • Vai Procurar por Odilon Esteves.

    Vai procurar, no fundo do seu coração

    motivos para não ser feliz, que você acha.

    Você vai encontrar passados,

    pão dormido, roupa velha, mofada,

    pedaços de brinquedo,

    alegrias de papel,

    arrependimentos onipotentes,

    desejos frustrados de voltar a vida

    que é só pra frente...

    Você vai encontrar medos

    inventados pelas mães do mundo,

    violências de pais,

    castigos, promessas, vis encantamentos

    e culpas, mais culpas, máximas culpas,

    encarregadas de curvar o peito

    e afastar você de Deus.

    Você vai encontrar uma multidão

    de rostos contorcidos de inveja,

    um monte de gente falando os caminhos

    por onde você deve passar.

    Você vai encontrar conselhos, advertências,

    ameaças, sutis proteções, elogios,

    gratidões, súplicas, presentes:

    vozes de todos os donos e todos os escravos.

    E no meio de tudo isso, você só não vai encontrar, infelizmente:

    VOCÊ.

    Autor: Antônio Roberto

    Assista este poema narrado pelo Odilon Esteves também no Youtube pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=UxT9G9QRdaM

  • Cinco meninos, Cinco ratos por Babi Dias

    Às 5 horas da tarde o vento faz o que nunca tinha feito

    Deita baixo Alexandre, ele levanta-se, mas de novo é derrubado

    E outra vez, e outra vez derrubado

    Alexandre tem medo agora e já não se levanta,

    Decide deixar que a tempestade passe.

    Autor: Gonçalo M Tavares

  • Expulso Por Bom Motivo por Odilon Esteves.

    Eu cresci como filho
    De gente abastada. Meus pais
    Me colocaram um colarinho, e me educaram
    No hábito de ser servido
    E me ensinaram a dar ordens. Mas quando
    Já crescido, olhei em torno de mim
    Não me agradaram as pessoas da minha classe e me juntei
    À gente pequena.

    Assim
    Eles criaram um traidor, ensinaram-lhe
    Suas artes, e ele
    Denuncia-os ao inimigo.
    Sim, eu conto seus segredos. Fico
    Entre o povo e explico
    Como eles trapaceiam, e digo o que virá, pois
    Estou instruído em seus planos.
    O latim de seus clérigos corruptos
    Traduzo palavra por palavra em linguagem comum,

    Então
    Ele se revela uma farsa. Tomo
    A balança da sua justiça e mostro
    Os pesos falsos. E os seus informantes relatam
    Que me encontro entre os despossuídos, quando
    Tramam a revolta.
    Eles me advertiram e me tomaram
    O que ganhei com meu trabalho. E quando me corrigi
    Eles foram me caçar, mas
    Em minha casa
    Encontraram apenas escritos que expunham
    Suas tramas contra o povo. Então
    Enviaram uma ordem de prisão
    Acusando-me de ter ideias baixas, isto é
    As ideias da gente baixa.
    Aonde vou sou marcado
    Aos olhos dos possuidores.
    Mas os despossuídos
    Lêem a ordem de prisão
    E me oferecem abrigo. Você, dizem
    Foi expulso por bom motivo.

    Autor: Bertolt Brecht

    Assista este poema narrado pelo Odilon Esteves também no Youtube pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=NIzPRP49IeM

  • Quem se Defende por Odilon Esteves.

    Quem se defende porque lhe tiram o ar

    Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo

    Que diz: ele agiu em legítima defesa. Mas

    O mesmo parágrafo silencia

    Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão.

    E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente

    Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre

    Não lhe é permitido se defender.

    Autor: Bertolt Brecht

    Assista este poema narrado pelo Odilon Esteves também no Youtube pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=FwJKbx-7x9U

  • Iemanjá dos Cinco Nomes por Babi Dias.

    Ninguém no cais tem um nome só. Todos têm também um apelido ou abreviam o nome, ou o aumentam, ou lhe acrescentam qualquer coisa que recorde uma história, uma luta, um amor.

    Iemanjá, que é dona do cais, dos saveiros, da vida deles todos, tem cinco nomes, cinco nomes doces que todo o mudo sabe. Ela se chama Iemanjá, sempre foi chamada assim e esse é seu verdadeiro nome, de dona das águas, de senhora dos oceanos. No entanto os canoeiros amam chamá-la D. Janaína, e os pretos, que são seus filhos mais diletos, que dançam para ela e mais que todos a temem, a chamam de Inaê, com devoção, ou fazem as suas súplicas à Princesa de Aiocá, rainha dessas terras misteriosas que se escondem na linha azul que as separa das outras terras. Porém, as mulheres do cais, que são simples e valentes, Rosa Palmeirão, as mulheres da vida, as mulheres casadas, as moças que esperam noivos, a tratam de D. Maria, que Maria é um nome bonito, é mesmo o mais bonito de todos, o mais venerado, e assim o dão a Iemanjá como um presente, como se lhe levassem uma caixa de sabonetes à sua pedra no Dique. Ela é sereia, é a mãe-d’água, a dona do mar, Iemanjá, D. Janaína, D. Maria, Inaê, Princesa de Aiocá.

    Ela domina esses mares, ela adora a lua, que vem ver as noites sem nuvens, ela ama as músicas dos negros. Todo o ano se faz a festa de Iemanjá, no Dique e em Monte Serrat. Então a chamam por todos seus cinco nomes, dão-lhe todos os seus títulos, levam-lhe presentes, cantam para ela.

    Autor: Jorge Amado.

    Obra: Mar morto

  • O rei da criação, quem é por Odilon Esteves

    O joão-de-barro não faz

    casa para alugar

    o elefante é fortão

    mas não faz guerra 

    o leão não ataca 

    sem fome 

    depois o único bicho 

    inteligente é o homem

    Autor: Ulisses Tavares.

    Assista este poema narrado pelo Odilon Esteves também no Youtube pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=OUw6AagcAGc

  • Crônica da cidade do Rio de Janeiro por Babi Dias.

    No alto da noite do Rio de Janeiro, luminoso, generoso, o Cristo Redentor estende os braços. Debaixo desses braços os netos dos escravos encontram amparo.
    Uma mulher descalça olha o Cristo, lá de baixo, e apontando seu fulgor, diz, muito tristemente:
    — Daqui a pouco, já não estará mais aí. Ouvi dizer que vão tirar Ele daí.
    — Não se preocupe — tranquiliza uma vizinha —. Não se preocupe: Ele volta.
    A polícia mata muitos, e mais ainda mata a economia. Na cidade violenta soam tiros e também tambores: atabaques, ansiosos de consolo e de vingança, chamam deuses africanos. Cristo sozinho não basta.

    Autor: Eduardo Galeano

  • Desabafo por Ludmila Guimarães.

    Hoje o carro pode dormir do lado de fora,

    minhas lembranças podem dormir do lado de fora,

    eu vou dormir como se não tivesse responsabilidades,

    que de fato não tenho.

    Hoje minhas contas podem atrasar,

    minha menstruação pode atrasar,

    vou estar ocupada desestressando o céu que anda nervosinho e sem relâmpago.

    Hoje pode bater saudade,

    bater na cara,

    bater na porta.

    Hoje eu não me abro para ninguém,

    vou fazer segredo para o espelho.

    Hoje eu quero respirar poesia,

    respingar inocência,

    refletir ternura sem assinar um termo de consentimento.

    Autora: Samelly Xavier

  • Café da Manhã por Odilon Esteves.

    Pôs café na xícara
    Pôs leite na xícara com café
    Pôs açúcar no café com leite
    Com a colherzinha mexeu
    Bebeu o café com leite
    E pôs a xícara no pires
    Sem me falar
    Acendeu um cigarro
    Fez círculos com a fumaça
    Pôs as cinzas no cinzeiro
    Sem me falar
    Sem me olhar
    Levantou-se
    Pôs o chapéu na cabeça
    Vestiu a capa de chuva porque chovia
    E saiu debaixo de chuva
    Sem uma palavra
    Sem me olhar
    Quanto a mim pus a cabeça entre as mãos
    E chorei

    Autor: Jacques Prévert.

    Assista este poema narrado pelo Odilon Esteves também no Youtube pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=d5yQdXoi5Y0

  • Poesia por Odilon Esteves.

    "Gastei uma hora pensando um verso

    que a pena não quer escrever.

    No entanto ele está cá dentro

    inquieto, vivo.

    Ele está cá dentro e não quer sair. 

    Mas a poesia deste momento

    inunda minha vida inteira.

    Autor: Carlos Drummond de Andrade

    Assista este poema narrado pelo Odilon Esteves também no Youtube pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=N7fDThx-pnU

  • Grande Sertão Veredas por Ludmila Guimarães.

    "...O certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundezas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma..."

    Autor: Guimarães Rosa

  • Por Não Estarem Distraídos por Odilon Esteves

    Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas, as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!  Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam mais bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que já eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

    Autor: Clarice Lispector.

    Assista este poema narrado pelo Odilon Esteves também no Youtube pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=-cNvo25PiTM

  • Mulher da Vida por Babi Dias

    Mulher da Vida,
    Minha irmã.
    De todos os tempos.
    De todos os povos.
    De todas as latitudes.
    Ela vem do fundo imemorial das idades
    e carrega a carga pesada
    dos mais torpes sinônimos,
    apelidos e ápodos:
    Mulher da zona,
    Mulher da rua,
    Mulher perdida,
    Mulher à toa.
    Mulher da vida,
    Minha irmã.

    Autora: Cora Coralina

  • Ensinamento por Odilon Esteves.

    Minha mãe achava estudo 

    a coisa mais fina do mundo. 

    Não é.

    A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 

    Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, 

    ela falou comigo:

    'coitado, até essa hora no serviço pesado'. 

    Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente. 

    Não me falou em amor. 

    Essa palavra de luxo.

    Autora: Adélia Prado.

    Assista este poema narrado pelo Odilon Esteves também no Youtube pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=u5WwlCpnD8g

  • Da Felicidade por Babi Dias

    Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
    Procede tal e qual o avozinho infeliz:
    Em vão, por toda parte, os óculos procura
    Tendo-os na ponta do nariz!

    Autor: Mário Quintana